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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Por becos e vielas

A toponímia é a parte da onomástica que estuda os nomes próprios de lugares. Assim, um topónimo é um nome geográfico, seja de regiões, de cidades ou de lugares.

Num recente passeio pelos arredores de Viseu, descobri que, na toponímia urbana, além de rua, avenida, alameda, praça, largo, travessa, estrada, calçada, ladeira, beco, existe também a quelha, que é uma viela estreita.



Até há pouco tempo, a regra era grafar os topónimos sempre em caixa alta (maiúscula). Porém, o novo acordo ortográfico prevê a opção de maiúscula ou minúscula na categorização de logradouros públicos. Deste modo, podemos escrever «Quelha das Hortas» ou «quelha das Hortas».
 

Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
PINTO, Paulo Feytor, Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 2.ª Ed. Lisboa: Imprensa Nacional, 2010.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Cão mongol

«Canato» é uma palavra curiosa. Não consta no Houaiss, dicionário que tenho em muito boa conta, nem no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Foi no Metro 2033, de que já falei antes, que deparei com a palavra. Descobri o significado no Priberam.

«Canato» é um território governado pelo cã. «Cã» é o título dos imperadores mongóis, descendentes de Gengis Khan. Nalgumas províncias da Ásia Central, o cã é o oficial comandante ou o governador.

Gengis Khan foi um dos mais conhecidos conquistadores. Foi guerreiro e líder mongol, e unificou diversas tribos nómadas da Mongólia, tornando-as aquilo que viria a ser o Império Mongol, que depois se estendeu pela Ásia até ao mar Adriático.

Na Wikipédia (e não só) o nome «Gengis Cão» aparece como uma alternativa ao nome de Gengis Khan. Além da questão fonética, não descubro outra razão para tal acontecer...

COSTA, J. Almeida; MELO, A. Sampaio e, Dicionário da Língua Portuguesa. 8.ª Ed. Porto: Porto Editora, 1999.
Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. 2010. www.priberam.pt
Infopédia. Porto: Porto editora, 2003-2012. www.infopedia.pt
GLUKHOVSKY, Dmitry, Metro 2033, trad. Pedro Garcia Rosado. Lisboa: Gailivro, 2011.
Wikipedia. www.pt.wikipedia.org

terça-feira, 22 de maio de 2012

A minha laranjeira

Mais uma aprendizagem com o livro de Orlando Ribeiro.

«Dendroclasta» ‒ Adjectivo. Que ou quem é indiferente à vida ou à preservação das árvores.

A palavra deriva do grego «déndron», árvore, e do latim «claustru», fechadura de porta, ferrolho; barreira, vedação; clausura; obstrução.


Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
MACHADO, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 6.ª Ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1990. 5 Vols.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ar em movimento

aqui mencionei uma obra sobre a qual trabalhei, reedição de um texto de 1945. Trata-se de Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro. Os responsáveis pela edição do livro pretendiam manter, tanto quanto possível, as primeiras opções do autor, e o meu trabalho de revisão consistiu, essencialmente, na actualização ortográfica da obra.
Houve, no entanto, outras questões que surgiram com este trabalho. No livro são mencionados os nomes de alguns ventos, entre os quais o vento soão. Ignorância minha, lá achei que era «u» e não «o». Aprendi que existem os dois.

Soão ‒ A palavra deriva do latim solanu, de «sol», e significa «vento de leste». O vento soão é, então, um vento quente e abafadiço que se faz sentir em Portugal vindo do Oriente.
Suão ‒ De sulano, do Sul. O mesmo que «sulvento», vento do meio-dia. O vento suão é, assim, um vento também quente, mas que sopra do Sul.

Existem ventos «planetários», como os ventos alísios, ou alíseos, que sopram durante todo o ano, deslocando-se das regiões tropicais para o Equador (os ventos contralísios sopram na direcção contrária). Aos ventos de Verão chamam-se etésios, e sopram de Noroeste. E depois existem os ventos locais, como o bora, vento muito seco e frio que sopra no Adriático, especialmente na costa dálmata, e o mistral, vento forte, frio e seco que sopra do Norte. Com uma rápida pesquisa no dicionário descubro que, além dos ventos mencionados por Orlando Ribeiro, existem muitos mais; ábrego, barbeiro, chiasco, galerno...

Tive (muitas) dúvidas relativamente à utilização do itálico nos nomes dos ventos. A edição original do livro recorria ao itálico, bem como as edições posteriores. A regra genérica é a de que se deve utilizar o itálico nos nomes próprios dos animais, ou dos objectos, por forma a distingui-los dos nomes das pessoas. Mas não se tratava nem de uma coisa nem de outra. Já antes tinha estacado perante a possibilidade de recorrer ao itálico nos nomes dos furacões, que têm maioritariamente nomes femininos, e decidi avançar com o itálico. No caso dos ventos, e depois de descobrir o vento barbeiro e o salseiro, entre outros, pareceu-me que a situação era semelhante e que se justificava o uso do itálico.

Ossos do ofício ‒ No Houaiss, «soão» é definido como «vento quente que sopra do Sul para o Sudeste (...) vento que sopra da direção onde nasce o Sol»...


Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
MACHADO, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 6.ª Ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1990. 5 Vols.
RIBEIRO, Orlando, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 6.ª Ed. Lisboa: Livraria Letra Livre, 2011.

sábado, 7 de abril de 2012

As palavras são como as cerejas

Palavra de uso antigo, mas nova para mim. Descobri-a durante um passeio no cemitério do Alto de São João.

«Cendrário» ‒ é o local onde se guardam as cinzas de um cadáver.

O adjectivo «cendrado» equivale a «acendrado» e é um espanholismo; particípio do verbo «cendrar». O verbo deriva, provavelmente, do catalão «cendra», palavra proveniente do latim e que significa «cinza».

«Cendrar» ou «acendrar» tem vários significados: limpar com cinza; acrisolar; purificar; dar ou adquirir qualidades superiores; aperfeiçoar-se; pintar de cor cinzenta.

E, já agora, «acrisolar» é tirar as impurezas de um metal precioso, purificar no crisol (recipiente utilizado para misturar ou fundir substâncias), adquirindo também, naturalmente, o significado de purificação moral.

Diciónário do Português Atual Houaiss, Lisboa: Círculo de Leitores, 2011.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Há traduções que nos deixam com a pulga atrás da orelha...

Não me perguntem o que achei estranho no facto de aquela personagem ver as horas no relógio do avô, alguma ligeira incongruência na história, talvez. O certo é que me levou a olhar para o original ‒ grandfather clock‒ que, por aparecer deste modo, expressão feita, me levou a investigar...

Grandfather clock ou longase clock é um relógio de pêndulo, de pé alto. Existe ainda o mini-grandfather clock, também um relógio de pêndulo, mas pequeno.
Em 1876, Henry Clay Work escreveu a canção «Grandfather's Clock», que terá dado a alcunha ao relógio. A canção fala do relógio de pêndulo do avô, comprado no dia em que este nasceu, e que toda a vida deu as horas sem falhar. No dia em que o avô morreu, o relógio parou para não mais trabalhar.

A canção foi (é) de tal modo popular, que vários cantores a interpretaram, incluindo o grande Johnny Cash.

sábado, 28 de maio de 2011

ABC Ortográfico

Estive a trabalhar num livro editado pela primeira vez em 1945, e que agora foi reeditado com uma considerável actualização ortográfica (muito mudou em cinquenta anos!).
O livro em questão não tinha ainda a ortografia actualizada pelo acordo ortográfico de 1945, por isso lembrei-me de espreitar um livrinho que adquiri na febre do mais recente acordo de 2010, e que não tinha tido oportunidade de analisar. Descobri algumas coisas muito interessantes!

A B C Ortográfico: Regras da nova ortografia. É um livro de autoria do Prof. Alfredo Cabral, editado pelo próprio, e a Papelaria Fernandes foi a depositária da obra.

O capítulo «Alguns erros, solecismos e estrangeirismos frequentes que importa evitar» tem uma lista de expressões que «não se deve dizer nem escrever», a qual é completada por outra lista de expressões opcionais. (Bom, em primeiro lugar, descobri o significado da palavra “solecismo” ‒ qualquer erro ou falta contra as regras da sintaxe; incorrecção de linguagem.) Nesta lista há de tudo; palavras que não suscitam hoje quaisquer dúvidas, palavras que hoje fazem parte do nosso vocabulário quotidiano, mas há também alguns casos muito curiosos. Cá está um apanhado (não esquecer, em todos os casos, que este livro foi editado em 1951...):

Atelier ‒ deve-se dizer oficina, estúdio, laboratório;
Biberon ‒ deve-se dizer mamadeira;
Cabaret ‒ deve-se dizer taberna, botequim;
Capotar ‒ deve-se dizer “sossobrar”, afundar-se;
Cliché ‒ deve-se dizer matriz, molde, prova negativa;
Compra-se livros usados ‒ deve-se dizer compram-se livros usados;
Controlar ‒ deve-se dizer fiscalizar, examinar, inspeccionar;
Deboche ‒ deve-se dizer corrupção, libertinagem, orgia;
Detalhe ‒ deve-se dizer pormenor, minúcia;
Detective ‒ deve-se dizer polícia secreto;
Envelope ‒ deve-se dizer sobrescrito;
Gangster ‒ deve-se dizer bandoleiro, salteador;
Golpe de vista ‒ deve-se dizer relance de olhos;
Inapto ‒ deve-se dizer inepto;
Manicure ‒ deve-se dizer manicuro;
Marquise ‒ deve-se dizer marquesa;
Massacre ‒ deve-se dizer chacina, morticínio, carnificina;
Omelette ‒ deve-se dizer fritada (de ovos);
Pós de escrito ‒ deve-se dizer post scritum (depois de escrito);
Révellion ‒ deve-se dizer velada, vigília; consoada;
Robe ‒ deve-se dizer roupão;
Snob - deve-se dizer pretensioso, excêntrico;
Soutien ‒ deve-se dizer ampara-seios, corpete, colete;
Teve lugar ‒ deve-se dizer realizou-se, efectuou-se;
Travesti ‒ deve-se dizer disfarce, máscara;

No capítulo referente aos «Nomes gentílicos», descubro que o habitante da Abissínia é um abexim; o de Afife, um afifano ou afifense; o da Guarda ou de Idanha-a-Nova, um egitanense ou egitano; o de Outeiro de Gatos é um gatense ou gateiro; o de Paredes de Coura, um courense; o de Ribacoa, um transcudano...

Mais à frente, um útil capítulo dedicado às «Vozes de animais»:

Ora, a andorinha, além de chilrear, chalra, gorjeia, trinfa e trisa (pri-pi-pi); a calhandra gargalha e cucurica; a codorniz pipia e geme (três tostões, três tostões; paspalhão, paspalhão; capataz, capataz); o camelo blatera; o cevado grunhe, cochina e ronca; a cigarra zangarreia, estridula, cicia, chirria, graniza e fretene; o estorninho pissita e chucherreia; a galinha cacareja (có-có-có-coro-có); mas a de Angola chalra (quiquiá, quiquiá; estou fraca, estou fraca; estou fresca, estou fresca); já o homem fala, balbucia, algaravia, palra, papagueia, cochicha, segreda, clama, declama, grita, caturra, chora, ri, taramela, gagueja, alterca, arremeda, ralha, etc.; o jacaré chora; o lagarto farfalha; a mejengra retrauteia (chapim-pim-pim-cachapim, patachim); o papa-figos taralha (viste lá o clérigo? lá o vi, lá o vi).

E logo a seguir, «Outras onomatopeias»:

Comboio ‒ pouca terra, pouca terra; pouca terra, muito pão; pouca terra, muita calha;
Guitarra ‒ telerelim, telerelim;
Líquido derramando-se por um orifício ‒ llllll; xxxxxxx;
Queda de corpo ‒ catrapuz;
Riso ‒ á, á, á, á, á; i, i, i, i, i; ó, ó, ó, ó, ó;
Sino ‒ dlim, dlão; dalim, dalão; tão, badalão; dim, dom; dãnnn, dãnnn;
Sino grande ‒ tão toleirão, tão toleirão;
Sino pequeno ‒ tem lêndeas, tem lêndeas;
Tambor ‒ plam, plam, rataplam; plana, plana, rataplana; rana, cataplana, mata aquela ratazana;
Tosse ‒ quefum, quefum, quefum.