quarta-feira, 6 de junho de 2012

Cão mongol

«Canato» é uma palavra curiosa. Não consta no Houaiss, dicionário que tenho em muito boa conta, nem no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Foi no Metro 2033, de que já falei antes, que deparei com a palavra. Descobri o significado no Priberam.

«Canato» é um território governado pelo cã. «Cã» é o título dos imperadores mongóis, descendentes de Gengis Khan. Nalgumas províncias da Ásia Central, o cã é o oficial comandante ou o governador.

Gengis Khan foi um dos mais conhecidos conquistadores. Foi guerreiro e líder mongol, e unificou diversas tribos nómadas da Mongólia, tornando-as aquilo que viria a ser o Império Mongol, que depois se estendeu pela Ásia até ao mar Adriático.

Na Wikipédia (e não só) o nome «Gengis Cão» aparece como uma alternativa ao nome de Gengis Khan. Além da questão fonética, não descubro outra razão para tal acontecer...

COSTA, J. Almeida; MELO, A. Sampaio e, Dicionário da Língua Portuguesa. 8.ª Ed. Porto: Porto Editora, 1999.
Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. 2010. www.priberam.pt
Infopédia. Porto: Porto editora, 2003-2012. www.infopedia.pt
GLUKHOVSKY, Dmitry, Metro 2033, trad. Pedro Garcia Rosado. Lisboa: Gailivro, 2011.
Wikipedia. www.pt.wikipedia.org

terça-feira, 22 de maio de 2012

A minha laranjeira

Mais uma aprendizagem com o livro de Orlando Ribeiro.

«Dendroclasta» ‒ Adjectivo. Que ou quem é indiferente à vida ou à preservação das árvores.

A palavra deriva do grego «déndron», árvore, e do latim «claustru», fechadura de porta, ferrolho; barreira, vedação; clausura; obstrução.


Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
MACHADO, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 6.ª Ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1990. 5 Vols.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Velhos são os trapos

«I have since published his entire work.»  / «Desde então, publiquei toda a obra dele.»

A frase não era bem assim, mas o exemplo serve. A palavra inglesa «since» não é um “falso amigo”, e a sua tradução não parece oferecer dificuldades de maior; desde, desde então. Não fosse a incongruência que originava no texto, e que não me pareceu que fosse um lapso do autor, e teria passado. A palavra tem, no entanto, outros significados.
Folheei diversos dicionários (de inglês e bilingues) sem conseguir deslindar o caso. Foi no meu velhinho dicionário de inglês/português que “apanhei” o significado que procurava: «Depois, posteriormente: the house has been sold since.» Também o Merriam-Webster online apresenta esta alternativa: «After a time in the past: subsequently ‒ has since become rich


VALLANDRO, Leonel; VALLANDRO, Lino, Dicionário Ilustrado Verbo Inglês Português. São Paulo: Verbo-Globo, 1976. 2 Vols.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ar em movimento

aqui mencionei uma obra sobre a qual trabalhei, reedição de um texto de 1945. Trata-se de Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro. Os responsáveis pela edição do livro pretendiam manter, tanto quanto possível, as primeiras opções do autor, e o meu trabalho de revisão consistiu, essencialmente, na actualização ortográfica da obra.
Houve, no entanto, outras questões que surgiram com este trabalho. No livro são mencionados os nomes de alguns ventos, entre os quais o vento soão. Ignorância minha, lá achei que era «u» e não «o». Aprendi que existem os dois.

Soão ‒ A palavra deriva do latim solanu, de «sol», e significa «vento de leste». O vento soão é, então, um vento quente e abafadiço que se faz sentir em Portugal vindo do Oriente.
Suão ‒ De sulano, do Sul. O mesmo que «sulvento», vento do meio-dia. O vento suão é, assim, um vento também quente, mas que sopra do Sul.

Existem ventos «planetários», como os ventos alísios, ou alíseos, que sopram durante todo o ano, deslocando-se das regiões tropicais para o Equador (os ventos contralísios sopram na direcção contrária). Aos ventos de Verão chamam-se etésios, e sopram de Noroeste. E depois existem os ventos locais, como o bora, vento muito seco e frio que sopra no Adriático, especialmente na costa dálmata, e o mistral, vento forte, frio e seco que sopra do Norte. Com uma rápida pesquisa no dicionário descubro que, além dos ventos mencionados por Orlando Ribeiro, existem muitos mais; ábrego, barbeiro, chiasco, galerno...

Tive (muitas) dúvidas relativamente à utilização do itálico nos nomes dos ventos. A edição original do livro recorria ao itálico, bem como as edições posteriores. A regra genérica é a de que se deve utilizar o itálico nos nomes próprios dos animais, ou dos objectos, por forma a distingui-los dos nomes das pessoas. Mas não se tratava nem de uma coisa nem de outra. Já antes tinha estacado perante a possibilidade de recorrer ao itálico nos nomes dos furacões, que têm maioritariamente nomes femininos, e decidi avançar com o itálico. No caso dos ventos, e depois de descobrir o vento barbeiro e o salseiro, entre outros, pareceu-me que a situação era semelhante e que se justificava o uso do itálico.

Ossos do ofício ‒ No Houaiss, «soão» é definido como «vento quente que sopra do Sul para o Sudeste (...) vento que sopra da direção onde nasce o Sol»...


Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
MACHADO, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 6.ª Ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1990. 5 Vols.
RIBEIRO, Orlando, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 6.ª Ed. Lisboa: Livraria Letra Livre, 2011.

sábado, 28 de abril de 2012

Arroz de gambas malandrinho

Em conversa com a Aurora, durante um belo almoço domingueiro, ficámos às voltas com o plural de arroz... Arrozes?

A formação do plural nos substantivos terminados em «n», «r» e «z» é feita acrescentando «es» ao singular; «dólmen/dólmenes», «colar/colares», «fugaz/fugazes». Nalguns casos, a formação do plural provoca a deslocação da sílaba tónica, como é o caso de «espécimen/especímenes», «carácter/caracteres», «júnior/juniores».
Não são conhecidas excepções à formação do plural nas palavras terminadas em «z». Assim, apesar de soar esquisito ao ouvido, é mesmo «arroz/arrozes», tal como «giz/gizes».
A palavra «arroz» é um substantivo não-contável ou massivo (substantivo que designa um conjunto cujas partes não se podem contar), à semelhança de «açúcar», «farinha», «mel». Apesar disso, estes substantivos admitem o plural, quando utilizado para designar diferentes tipos: «Pedi dois arrozes, o de marisco e o de tamboril»; «São de evitar todos os açúcares»; «Utilizei duas farinhas na confecção deste pão».

«Arroz», a palavra vem do árabe «ar-ruz», com o mesmo sentido; a erva, da qual se extraem os grãos, tem origem asiática e é cultivada há mais de cinco mil anos. Várias lendas envolvem este alimento.
Na Índia, para ceder ao amor do deus Siva, Retna Dumila exige-lhe que crie um alimento que possa ser apreciado por todos os seres humanos. Não sendo capaz de o fazer, o deus toma-a pela força. Dumila morre de desgosto e, quarenta dias depois, uma planta desconhecida nasce no seu túmulo; o arroz. Siva ordena que as sementes da nova planta sejam distribuídas por todos os homens. Um seguimento desta lenda conta que Dewi-Sri, esposa de Vishnu, não podendo corresponder às investidas de um apaixonado, pede aos deuses um fim idêntico ao de Dumila; e também no seu túmulo surge o arroz. Dewi-Sri é, na Índia, a deusa da orizicultura (cultura do arroz).

No Japão, conta-se que um rato escondia num buraco grãos de uma planta desconhecida. Um monge budista, querendo saber de onde o bicho os trazia, atou um fio a uma das patas do rato e seguiu-o até um país longínquo onde se cultivava o arroz.

«Eu dou-te o arroz!», expressão popular utilizada como ameaça de castigo físico ou no sentido de dar uma lição a alguém.
«Arroz fingido», expressão que indica qualquer forma de fingimento.
«Arroz queimado», expressão que se utiliza quando já não é possível remediar uma asneira.

NEVES, Orlando, Dicionário da Origem das Palavras. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001.
NEVES, Orlando, Dicionário de Expressões Correntes. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000.
Dicionário do Português Atual Houaiss. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. 2 Vols.
CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley, Nova Gramática do Português Contemporâneo. 18.ª Ed. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 2005.
SANTOS, António Nogueira, Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 2006.