sábado, 7 de abril de 2012

As palavras são como as cerejas

Palavra de uso antigo, mas nova para mim. Descobri-a durante um passeio no cemitério do Alto de São João.

«Cendrário» ‒ é o local onde se guardam as cinzas de um cadáver.

O adjectivo «cendrado» equivale a «acendrado» e é um espanholismo; particípio do verbo «cendrar». O verbo deriva, provavelmente, do catalão «cendra», palavra proveniente do latim e que significa «cinza».

«Cendrar» ou «acendrar» tem vários significados: limpar com cinza; acrisolar; purificar; dar ou adquirir qualidades superiores; aperfeiçoar-se; pintar de cor cinzenta.

E, já agora, «acrisolar» é tirar as impurezas de um metal precioso, purificar no crisol (recipiente utilizado para misturar ou fundir substâncias), adquirindo também, naturalmente, o significado de purificação moral.

Diciónário do Português Atual Houaiss, Lisboa: Círculo de Leitores, 2011.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Há traduções que nos deixam com a pulga atrás da orelha...

Não me perguntem o que achei estranho no facto de aquela personagem ver as horas no relógio do avô, alguma ligeira incongruência na história, talvez. O certo é que me levou a olhar para o original ‒ grandfather clock‒ que, por aparecer deste modo, expressão feita, me levou a investigar...

Grandfather clock ou longase clock é um relógio de pêndulo, de pé alto. Existe ainda o mini-grandfather clock, também um relógio de pêndulo, mas pequeno.
Em 1876, Henry Clay Work escreveu a canção «Grandfather's Clock», que terá dado a alcunha ao relógio. A canção fala do relógio de pêndulo do avô, comprado no dia em que este nasceu, e que toda a vida deu as horas sem falhar. No dia em que o avô morreu, o relógio parou para não mais trabalhar.

A canção foi (é) de tal modo popular, que vários cantores a interpretaram, incluindo o grande Johnny Cash.

sábado, 2 de julho de 2011

Revisão com orquestra



John Zorn, «Makaahaa», ao vivo em Brooklyn, Nova Iorque, a 29 de Fevereiro de 2008. Música do álbum The Gift, 2001, que acompanha frequentemente as minhas revisões.

Se quiserem ouvir...

sábado, 28 de maio de 2011

ABC Ortográfico

Estive a trabalhar num livro editado pela primeira vez em 1945, e que agora foi reeditado com uma considerável actualização ortográfica (muito mudou em cinquenta anos!).
O livro em questão não tinha ainda a ortografia actualizada pelo acordo ortográfico de 1945, por isso lembrei-me de espreitar um livrinho que adquiri na febre do mais recente acordo de 2010, e que não tinha tido oportunidade de analisar. Descobri algumas coisas muito interessantes!

A B C Ortográfico: Regras da nova ortografia. É um livro de autoria do Prof. Alfredo Cabral, editado pelo próprio, e a Papelaria Fernandes foi a depositária da obra.

O capítulo «Alguns erros, solecismos e estrangeirismos frequentes que importa evitar» tem uma lista de expressões que «não se deve dizer nem escrever», a qual é completada por outra lista de expressões opcionais. (Bom, em primeiro lugar, descobri o significado da palavra “solecismo” ‒ qualquer erro ou falta contra as regras da sintaxe; incorrecção de linguagem.) Nesta lista há de tudo; palavras que não suscitam hoje quaisquer dúvidas, palavras que hoje fazem parte do nosso vocabulário quotidiano, mas há também alguns casos muito curiosos. Cá está um apanhado (não esquecer, em todos os casos, que este livro foi editado em 1951...):

Atelier ‒ deve-se dizer oficina, estúdio, laboratório;
Biberon ‒ deve-se dizer mamadeira;
Cabaret ‒ deve-se dizer taberna, botequim;
Capotar ‒ deve-se dizer “sossobrar”, afundar-se;
Cliché ‒ deve-se dizer matriz, molde, prova negativa;
Compra-se livros usados ‒ deve-se dizer compram-se livros usados;
Controlar ‒ deve-se dizer fiscalizar, examinar, inspeccionar;
Deboche ‒ deve-se dizer corrupção, libertinagem, orgia;
Detalhe ‒ deve-se dizer pormenor, minúcia;
Detective ‒ deve-se dizer polícia secreto;
Envelope ‒ deve-se dizer sobrescrito;
Gangster ‒ deve-se dizer bandoleiro, salteador;
Golpe de vista ‒ deve-se dizer relance de olhos;
Inapto ‒ deve-se dizer inepto;
Manicure ‒ deve-se dizer manicuro;
Marquise ‒ deve-se dizer marquesa;
Massacre ‒ deve-se dizer chacina, morticínio, carnificina;
Omelette ‒ deve-se dizer fritada (de ovos);
Pós de escrito ‒ deve-se dizer post scritum (depois de escrito);
Révellion ‒ deve-se dizer velada, vigília; consoada;
Robe ‒ deve-se dizer roupão;
Snob - deve-se dizer pretensioso, excêntrico;
Soutien ‒ deve-se dizer ampara-seios, corpete, colete;
Teve lugar ‒ deve-se dizer realizou-se, efectuou-se;
Travesti ‒ deve-se dizer disfarce, máscara;

No capítulo referente aos «Nomes gentílicos», descubro que o habitante da Abissínia é um abexim; o de Afife, um afifano ou afifense; o da Guarda ou de Idanha-a-Nova, um egitanense ou egitano; o de Outeiro de Gatos é um gatense ou gateiro; o de Paredes de Coura, um courense; o de Ribacoa, um transcudano...

Mais à frente, um útil capítulo dedicado às «Vozes de animais»:

Ora, a andorinha, além de chilrear, chalra, gorjeia, trinfa e trisa (pri-pi-pi); a calhandra gargalha e cucurica; a codorniz pipia e geme (três tostões, três tostões; paspalhão, paspalhão; capataz, capataz); o camelo blatera; o cevado grunhe, cochina e ronca; a cigarra zangarreia, estridula, cicia, chirria, graniza e fretene; o estorninho pissita e chucherreia; a galinha cacareja (có-có-có-coro-có); mas a de Angola chalra (quiquiá, quiquiá; estou fraca, estou fraca; estou fresca, estou fresca); já o homem fala, balbucia, algaravia, palra, papagueia, cochicha, segreda, clama, declama, grita, caturra, chora, ri, taramela, gagueja, alterca, arremeda, ralha, etc.; o jacaré chora; o lagarto farfalha; a mejengra retrauteia (chapim-pim-pim-cachapim, patachim); o papa-figos taralha (viste lá o clérigo? lá o vi, lá o vi).

E logo a seguir, «Outras onomatopeias»:

Comboio ‒ pouca terra, pouca terra; pouca terra, muito pão; pouca terra, muita calha;
Guitarra ‒ telerelim, telerelim;
Líquido derramando-se por um orifício ‒ llllll; xxxxxxx;
Queda de corpo ‒ catrapuz;
Riso ‒ á, á, á, á, á; i, i, i, i, i; ó, ó, ó, ó, ó;
Sino ‒ dlim, dlão; dalim, dalão; tão, badalão; dim, dom; dãnnn, dãnnn;
Sino grande ‒ tão toleirão, tão toleirão;
Sino pequeno ‒ tem lêndeas, tem lêndeas;
Tambor ‒ plam, plam, rataplam; plana, plana, rataplana; rana, cataplana, mata aquela ratazana;
Tosse ‒ quefum, quefum, quefum.

domingo, 20 de março de 2011

O Metro de Moscovo

No fim do ano passado estive a trabalhar num livro que me levou a investigar o Metro de Moscovo. Concentrei-me, essencialmente, no mapa da rede do metro, cuja configuração achei desde logo muito peculiar. Só ao atentar nele uma segunda vez, me apercebi de que a linha circular, que une todas as estações, é mesmo uma linha de metro, o que torna o desenho do mapa absolutamente único e muito original.

Só depois, e por curiosidade, “descobri” o metro em si. As estações são magníficas e justificam o facto de o Metro de Moscovo ser também conhecido por palácio subterrâneo.

O Metro de Moscovo foi inaugurado em 1935 e transporta hoje cerca de nove milhões de pessoas por dia, número que faz desta rede de metro a maior do mundo em densidade de passageiros.
Esta rede é composta por doze linhas, num total de cento e oitenta estações, que são percorridas por mais de nove mil comboios.

O trabalho a que me refiro conduziu-me a uma segunda investigação, desta vez sobre o alfabeto cirílico. Acontece que a tradução dos nomes das estações variava consoante as fontes consultadas, o que me pareceu bastante estranho, uma vez que, pensei, a regra da transliteração do alfabeto cirílico para o latino devia ser única. Enganei-me. Ao que parece, não existe uma regra, mas várias e, segundo o que consegui descobrir, nenhuma é reconhecida oficialmente como norma. Assim, podemos ter a mesma palavra escrita com “y”, com “i” ou mesmo com “j”, ou uma palavra escrita com “x” ou com “ks”.

A criação do alfabeto cirílico remonta ao século IX e é atribuída a dois missionários cristãos bizantinos, (São) Cirilo e Metódio, que terão desenvolvido um novo método de escrita inspirado no alfabeto grego e no hebraico. Continha inicialmente 43 letras, derivadas de letras gregas e de combinações de letras gregas e hebraicas. Hoje, o russo moderno tem 32 letras, mas o búlgaro e o sérvio têm 30 letras e o ucraniano, 33. Penso que esta será também uma fonte de ruído no que diz respeito à transliteração, uma vez que o próprio alfabeto sofre algumas mutações consoante a zona que considerarmos.

No que ao meu problema diz respeito resolvi consultar o site oficial do Metro de Moscovo. Aí, o nome das estações aparece escrito em cirílico com a respectiva “tradução” para o alfabeto latino. Pareceu-me o mais sensato, e menos penoso do que estudar todas as possibilidades que as normas nos oferecem...



site do Metro de Moscovo; http://tipografos.net/glossario/cirilico.html